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Petrolina e os Coronéis. O domínio do Coronel Quelê (VI)
26/12/2016 06:12

Resumo de uma tese de doutorado do Dr. Ruyter Bezerra pela UFRN (segundo o médico José Farias, “Maninho” é o único sociólogo, doutor em Ciências Políticas nascido em Rajada):

Como uma das mais importantes do Estado, Petrolina é uma cidade do sertão pernambucano encravada numa região que ainda guarda tradições e costumes próprios. Sua economia é, predominantemente, primária. E a política é movida por grupos familiares, que se sucedem no poder, mantidos pelas práticas clientelísticas, cuja tradução tácita é dando que se recebe . Ou seja, o voto é a moeda de troca para a percepção dos benefícios. O Estudo analisa fatos da política na família Coelho e a sua persistente dominação através dos herdeiros de um antigo sistema baseado no coronelismo, que dão continuidade ao poder local com a estruturação de uma máquina politica, capaz de fazê-los quase imbatíveis eleitoralmente durante mais de meio século. Apesar de ter havido uma divisão intrafamiliar, todos são beneficiados diretos e indiretamente. Através de observações empíricas estabelecemos um pequeno histórico que nos desse a ideia do alcance desse poder através dos ancestrais, que simplesmente vão listando eventos que penetram nos labirintos das práticas politicas locais. A presente pesquisa opta pela metodologia da sociologia compreensiva através dos tipos ideais de Max Weber, na busca de respostas para as formações histórica, social e política dos fatos, em consonância com a realidade atual. Com base nisso, o recorte temporal contempla a trajetória política da família Coelho, nos períodos eleitorais, entre os anos de 1986 e 2012. Lugar Comum: onde uma nova geração torna-se também sujeito de uma nova aprendizagem, moral e intelectual. Afinal de contas, eles são herdeiros familiares. Nas sombras da família coelho: a dinâmica de uma dominação política. 2013.

Ainda segundo o Dr. Ruyter em sua dissertação de mestrado: O estudo analisa as formas como o neocoronelismo se manifesta através da herança política dos antigos Coronéis na cidade de Petrolina-Pernambuco. Herança esta que tem por finalidade a continuação de uma só família no poder local. Analisa-se o perfil deste poder que domina há quase meio século o município e parte da região do médio São Francisco, assim como o seu caráter clientelístico e sua formação histórica e política. Fica evidenciada, nos estudos, a propriedade dos serviços públicos pelo poder político local, a exemplo da utilização da CODEVASF como instrumento particular. Em face à retórica empreendedorista usada pela família Coelho, a oposição fica sem discurso. A configuração política desta família representa, ainda hoje, uma dupla dimensão: sustenta as elites políticas, através do clientelismo e fragiliza o processo da tomada de decisão pela via de interesses mútuos, expressando uma cultura política historicamente excludente. Neocoronelismo, aspersor e voto: estudo de caso sobre a herança do coronelismo e o poder local da família Coelho em Petrolina – PE(1990-2000)

Há vários manuscritos sobre esta oligarquia. Uns os chamam de coronéis sem patentes, outros de coronéis do asfalto, coronéis da seca, dos carros-pipas, dos aspersores etc.

Com o término do mandato de José Almeida, em 1955, elegeu-se prefeito de Petrolina José de Souza Coelho, iniciando o domínio da oligarquia Coelho.

Nascido em 1920, Nilo foi um dos mais vigorosos políticos do clã. Em 1947 iniciou sua carreira política como deputado estadual recém formado em Medicina. Durante o último governo Vargas, em 1951, foi eleito deputado federal. Um ano depois do golpe contra o governo do presidente João Goulart, 1965, Nilo era o 1º secretário da Câmara e cumpriu importante papel de apoio ao Presidente da República, general Castelo Branco, de quem recebeu, em 1967, a indicação para se tornar governador do estado pernambucano.

Conheci um deputado federal chamado Breno Dália da Silveira, médico, o mesmo do nome de rua em Boa Viagem e piso no Shopping Recife. Apesar de riquíssimo, um dos maiores proprietários de terra em recife, nobre, militava no PSB. Exilado na França durante a ditadura. Ele me dizia: você é da terra do senador estafeta. O menino de recado dos milicos.

Ainda durante a Ditadura, em 1979, Nilo foi beneficiado com os votos do senador arenista, Cid Sampaio, e garantiu ingresso ao senado, chegando ao cargo de presidente daquela casa legislativa.

Sabe-se que este coronel tinha um temperamento forte e empreendedor. Praticamente obrigou todos seus filhos (homens) a se formar. Parece-me que Geraldo Coelho, por exemplo, formou-se em engenharia civil em São Paulo, um fato muito difícil para a época (início dos 30 do século passado).

Existem algumas lendas em torno da figura do coronel. Diz-se que pelo fato de Dom Malan ser ligado aos Padilha e Barracão (através das figuras humanísticas de seus médicos como Dr. Cardoso de Sá, Dr. Pacífico da Luz etc) o coronel tinha ojeriza à igreja local. Fala-se inclusive que (auto) exilou-se de Petrolina face esta ojeriza. Quando da morte de Dom Malan (ele retornou então) a igreja pediu ao comércio local que fechassem as portas na chegada do novo bispo, Dom Idílio. O coronel teria falado que não o faria. Diz-se que neste interstício falece afogado e ficou desaparecido um dos seus filhos, Caio (daí o time de futebol Caiano). Conta a lenda que então aconteceu um milagre. O movimento das pás das rodas do vapor fez com que o corpo reaparecesse.

O coronel Quelê faleceu prematuramente (acidente automobilístico) e a oligarquia tinha como chefe sua viúva Dona Josepha Coelho. Apesar de tida como matriarca não se pode considerar como tal segundo alguns especialistas.

Segundo Marta Luz, num depoimento da ex-vereadora, vice-prefeita e amiga da família Maria de Lourdes Athaíde, “como a maioria das mulheres de seu tempo Dona Josepha não fugiu à regra. Era machista (…) achava, como todas suas conterrâneas, que homem devia ser tratado com regalias. Ela agia assim, com naturalidade”. (LUZ, 1999:69).

Bem, Dona Josefa, como era conhecida e chamada pela população local, não era somente uma Lady no porte físico, era também nas ações. Tratava a todos sem distinção de credo, política, rico ou pobre.

Também não se tem elemento concreto de que ela tinha consciência até onde ia a policies hard, e o envolvimento de sua prole na luta pela manutenção da hegemonia familiar no poder local e o que isso significava nos anos 60 e 70 do século passado.

Ela certamente não sabia, como milhões de brasileiros, que os golpistas de 64 torturavam e matavam milhares de inocentes, incluso religiosos, mulheres, crianças, estudantes e trabalhadores pelo país afora.

Com certeza Dona Josepha, com sua generosidade e formação (incluso religiosa) não comungaria com tal apoio.

Primeira geração

Coronel Quelê (Clementino Souza Coelho) – o patriarca foi subprefeito de Petrolina. Era casado com Josepha Coelho, com quem teve 12 filhos.

Segunda geração

Dos filhos, sete se envolveram com política:

Nilo – deputado estadual e federal, senador e governador de Pernambuco. Morreu em 1983 enquanto senador. Enquanto governador de Pernambuco foi criado um slogan: Um fiscal em cada esquina para promover Petrolina.

Seu irmão Osvaldo era secretário da fazenda e impôs o maior arrocho fiscal da história de Pernambuco. Inclusive com a prisão daqueles que se negavam a pagar.

Diz-se que sua maior obra foi o asfaltamento da estrada que liga Petrolina ao Trevo do Ibó completando assim o asfaltamento de Petrolina a Recife.

(Conta-se que um dia faleceu um funcionário de uma empresa de Ônibus de José Marques da Silva, vulgo Zé Bodinho, de Limoeiro, que foi preso por Osvaldo. Um advogado de Zé Bodinho foi a Limoeiro tratar dos assuntos deste falecimento. Encontra na rua o coronel Chico Heráclio que lhe pergunta: o que faz aqui? Ao que o advogado de Zé Bodinho responde: vim tratar dos papéis do falecido (atestado de óbito). Ao que retruca o coronel: vote, nem os mortos de Zé Bodinho tem papel?)

Gercino – foi prefeito de Guanambi (BA) e deputado estadual pela Bahia. Morreu em campanha em 1950. Acidente aéreo com o candidato a governador, nome de cidade, Lauro de Freitas.

Osvaldo – soma 44 anos de atuação no Legislativo: três mandatos na Assembleia de Pernambuco e oito na Câmara dos Deputados. Morreu em 2015.

José – foi deputado, prefeito de Petrolina por 2 vezes e suplente de senador. Morreu em 2007. Construiu e inaugurou o edifício-sede da Prefeitura Municipal e inaugurou a FFPP (da UPE, estadual).

Geraldo – ex-deputado estadual e ex-prefeito de Petrolina. Tem 90 anos. Criou a Autarquia Educacional do São Francisco que seria a mantenedora da FACAPE (Criada pelo prefeito Diniz Cavalcante).

Paulo – Candidato a vice governador com Jarbas Vasconcelos, não eleito, em 1990.

Augusto – Vereador e prefeito. Dentre outras inaugurou a Escola Técnica Federal e a Escola Agrotécnica (Federal) Dom Avelar Brandão Vilela.

Terceira geração

Fernando – ex-deputado federal, ex-prefeito de Petrolina (por três vezes), ex-ministro da Integração Nacional e senador eleito em 2014. É filho de Paulo Coelho.

Dentre outras promoveu a construção do River Shopping, o Centro de Convenções e o memorial Nilo Coelho em área municipalizada do antigo aeroporto.

Fernando Bezerra sintetiza bem este coronelismo como um coronel moderno ou coronel do asfalto. E apesar de moderno, milita no Partido Socialista Brasileiro (pasmem) veio da ARENA, depois PDS, Depois PFL e hoje DEM.

Foi do PMDB e também do PPS.

Assim como seus antepassados participaram ativamente do golpe em 1964 FBC como é mais conhecido foi um dos primeiros a apoiar o presidente Temer. E levou o ministério de Minas e Energia para seu filho.

Clementino – foi deputado federal em 1998 sem conseguir se reeleger em 2002 e presidiu a Codevasf. É irmão de Fernando.

Guilherme – filho de Osvaldo, é ex-prefeito e ex-vice-prefeito, disputou vaga na Câmara em 2014, mas foi derrotado. Atualmente, como suplente, substitui Bruno Araújo (PSDB) na Câmara Federal.

Dentre outros construiu o Parque Municipal que leva o nome de sua avó Dona Josepha.

Ciro – foi secretário estadual de Recursos Hídricos e deputado estadual. É filho de José.

Nilo Moraes Coelho – filho de Gercino é ex-governador da Bahia (eleito vice de Valdir Pires) e ex-prefeito de Guanambi. Em 2010, candidatou-se a vice-governador na chapa de Paulo Souto (DEM), mas foi derrotado. Derrotado também em 2016 quando se candidatou a prefeito da terra natal, Guanambi – BA.

Quarta geração

Fernando Filho – deputado federal reeleito em 2014 para o terceiro mandato. Concorreu à Prefeitura de Petrolina em 2012. Foi derrotado. É filho de Fernando Bezerra Coelho. Hoje ministro de Temer.

Miguel – deputado estadual eleito para o primeiro mandato em 2014. É também filho de Fernando. Eleito prefeito última eleição.

Os anos de chumbo.

CÂMARA, Hélder e outros. “NOTA DA ARQUIDIOCESE DE OLLINDA E RECIFE”. Texto mimeografado, distribuído pela Arquidiocese de Olinda e Recife à população. In. Boletim Arquidiocesano, órgão oficial da Arquidiocese de Olinda e Recife, vol. 1969-1, pg. 99.

Texto, datado de 27 de maio de 1969, é nota oficial da Arquidiocese comunicando o assassinato do Padre Henrique Pereira da Silva Neto (veja referência 319). Afirma: “(…) o que há de particularmente grave no presente crime, além dos requintes de perversidade de que se revestiu (…) é a certeza prática de que o atentado brutal se prende a uma série pré-estabelecida e objeto de ameaças e avisos (…)”.

Diz ainda o texto: “(…) o trabalho sinistro deste novo esquadrão da morte foi precedido de ameaças escritas em edifícios, acompanhadas, por vezes, de disparos de arma de fogo (…)”. Afirma, também, que, depois de vários atentados a órgãos da Igreja, “vieram, depois, ameaças telefônicas com o anúncio de que já estavam escolhidas as próximas vítimas”.

O texto é assinado por Dom Hélder, pelo vigário-geral Dom José Lamartine Soares, além de três outros sacerdotes.

Investigações citam que estas forças fascistas estavam incrustadas na secretaria de segurança do estado de Pernambuco tendo como governador Nilo de Souza Coelho, partido ARENA.

Em Petrolina foi desaparecido um estudante, Ruy frazão Soares, cujo único crime foi ter estudado em Harvard e ser militante político de esquerda..

Palavras de sua irmã que até hoje busca seu corpo: 27 de Maio de 1974, quando Rui foi de modo brutal preso e espancado publicamente na Feira de Petrolina, para em seguida ser algemado e jogado numa mala de carro, que representou o empurrão fatal para os subterrâneos da tortura, das violências mais inomináveis e da própria morte, com a ocultação de seu corpo, um longo inverno de sombras, desesperos e procuras se abateu sobre nós.

Palavras de Ruy aos amigos petrolinenses antes de ser “desaparecido”: Afastem-se de mim. Sou marcado para ser desaparecido! Ele soldava panelas na feira de Petrolina onde vivia na clandestinidade.



Fonte: Blog Didi Galvão
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